sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Chove torrencialmente dentro de mim

Chove Torrencialmente dentro de mim... Sinto que já pressentia a enxurrada que estava por vir como uma velha senhora que sente a chuva por vir com a mudança dos ventos.
Chuva transformadora, libertadora de mim... Antes presa num recipiente hermeticamente fechado, agora escorrendo entre teus lábios, lavando carinhosamente tuas feições, umidificando a alma.
Não há relampagos nem trovões que me façam desviar dos teus olhos. É simplesmente aquela chuva que você senta em frente da janela e observa... Lava vidraça, lava meus olhos como se agora pudesse ver dentro de ti. Os pingos no chão me fazem lembrar do estalido dos beijos que jamais esqueci. Não vejo temor no céu cinzento e obscuro.
A chuva me envolve a cintura assim como fazes teus braços. Também não há frio, a água que evapora parece tua respiração na minha nuca. O cheiro de terra molhada que faz brotar as mais infimas emoções. Os ventos te trouxeram até aqui...
Chove torrencilamente dentro de mim como se quisesse preencher o vazio de minh'alma... como se quisesse varrer pra longe toda a instabilidade... como se essa chuva, agora, fizesse parte de mim...


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Poesia?!? Não, apenas meras palavras...


Sinto cheiro de poesia no ar...

as palavras se criam, recriam, somem, voltam...

o aroma delas me persegue,

entra pelas minhas narinas,

desce pelas minhas entranhas,

adentra meu estômago....
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Sinto fome!



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... fome das palavras vãs a que me apeguei...

das laudas larápias que contam, recontam, mentem e revoltam!

Das cenas que a elas se seguem

... das juras fingidas

... dos espasmos sofridos,

do sussurro ao pé do ouvido...
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Fome daquelas palavras roubadas

e profanadas
...
- E poetizadas?! -
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Não!
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Naquela boca eram

apenas meras palavras...
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...

...
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..

Nada pra fazer, vou brincar de escrever! rs
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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Carnaval 2008



Foto de Marcos Aquino

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Um HAIKAI (ou seria um HAIKÚ?)

O outono escuta
Barulho de folhas secas
Se pisar meu peito

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Só um adendo.

Enquanto há recessão de inspiração, fica aí esse adendo pseudoinfopinativo:
Pesquisa mostrou as instituições nas quais os brasileiros mais e menos confiam, a saber:
A mídia e o governo respectivamente....

Ao ter acesso à essa informação, cocei minhas suíças (tão pseudoinfopinativas quanto esse adendo) e pensei: "Somos gênios ou idiotas... Hum, será que é possível ser os dois meio-a-meio?"

Depois disso pensei em escrever um texto sobre a credulidade e a incredulidade do brasileiro. Mas fiquei pensando sobre esse lance de meio-a-meio e decidi que era mais proveitoso comer um trakinas...

R!

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

All Star novo

Não é lindo?!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Flerte

Foto de Alberto Santos, 08/2004
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Eu o vi de relance e olhei novamente... Estávamos num festival de música duma cidadezinha no interior do Rio de Janeiro. Lembro que eu tomava um vinho 'bagaceira' nessa hora.
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Era o show de um artista meio brega, desses que você tem vergonha de contar que viu ao vivo... quando olhei novamente, vi que seu olhar encontrava-se com o meu...
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Eu deveria parar, mas estava adorando 'levar flechadas daquele olhar'... e continuei olhando... agora não só olhava como também sorria para o dono daqueles olhos castanhos...
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Acabou o show. Eu e minhas amigas dirigimo-nos até o toillet mais próximo. Fi-lo seguir-me... creio que meu olhar também despertara seu interesse e confirmei-o mais tarde durante nossa conversa.
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Continuei a observá-lo na fila... e ele a mim. É incrível como podemos dizer tanto sem falar palavra alguma... seus olhos diziam inúmeras coisas aos meus... coisas que só os olhos podem dizer... coisas que não são passíveis de descrição e que só os olhos compreendem... Vai entender! rs
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Seguiu-me depois, até tomar coragem de falar-me. Apresentou-se a mim e às minhas amigas. Parecia 'safo' demais, no entanto, havia certo indício de insegurança em suas palavras, mas isso ele disfarçava bem... creio que só eu o percebi.
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Trouxe outros consigo, para que ninguém se sentisse solitária. Conversávamos sobre tudo e sobre nada... eram trivialidades apenas... mas a companhia dele estava tão boa... o assunto rendia mesmo que não fosse do nosso interesse...
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E falávamos... beijávamos, e não mais falávamos... parecia que eu já o conhecia profundamente... o tempo havia estacionado, o frio de 3ºC já tinha se tornado calor enquanto estava envolta naqueles braços. A música agora era lenta, não por que ela assim o fosse, mas por que essa ficou sendo a lembrança daqueles instantes. O céu estava cheio de estrelas...
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Era um alguém exótico, diferente dos outros, difícil de rotular... talvez por isso a música de fundo na minha memória seja diferente da que tocava de fato no dia... talvez por isso eu tenha gostado tanto. Era um pequeno flerte no meu feriadão de Corpus Cristi, a novidade pra 'cerva' de fim-de-semana com as amigas, minha pequena válvula de escape da rotina...
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... Era um alguém que eu nunca mais veria...
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(...)
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E a música cessou, o festival acabou, o frio voltou, o ônibus demorou ... mas a volta para casa foi tão doce quanto a 'sangria' que tomava no começo da noite ...


...
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É... com as devidas ressalvas, essa é uma página do meu diário, editada claro, pra que ninguém se sentisse exposto e nem eu fosse processsada! Como a última postagem foi sobre beijo, nada melhor que escrever sobre um flerte.
Esse texto foi escrito originalmente em 12/06/07 e modificado hj, dia 10/01/08.
rs

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Morte na Rua Paraíso

'1, 2, 3, 4'...
... que barulho estranho! ... Parece?!? ...
Quantos gritos!?! ...
... Chego na janela e: '5, 6'!!!
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No chão, no chão, no chão!!
... Foram mais dois disparos.
(...)

pintura de 1894 intitulada 'O Cadáver', exposta no museu Alemão da Higiene em Dresden
(Na reportagem não encontrei o nome do autor)



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Mais dois disparos e mais nenhum grito... segundos depois, o silêncio da rua era rompido apenas pelo desespero da viúva:

" --Mataram meu marido, mataram meu marido!!"
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Eu continuava deitada no chão, com medo de mais alguma coisa e não sabia bem do que. Por trás das paredes de concreto da minha sala, não enxergava nada, mas via tudo....
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Via uma viúva atônita, sem nem conseguir acreditar no que estava acontecendo... ela não chorava. Acho que nem sabia chorar. Ela estava em pânico e só sabia gritar:
" --Mataram meu marido!!!" ....
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Via o bebê recém-nascido no colo dela - ele chorava de quando em vez, mas não devia saber o que estava acontecendo... acho que chorava devido as sacolejadas no colo da mãe... via os outros dois filhos dela, duas pequenas crianças lacrimejando e ganindo diante da cena funesta. Duas crianças com as cândidas almas sendo profanadas por imagens tão bestiais como aquela...
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Via os vizinhos consolando a viúva, ou tentado consola-la... acho que no fundo, eles tentavam consolar-se a si próprios. Moram numa cidade tomada por um poder paralelo que adentra as casas das pessoas e muda para sempre a sorte de uma família, ou melhor, de várias famílias... Moram num lugar onde se mata maridos na frente de suas esposas. Ninguém estava a salvo daquela realidade. A morte dele poderia ser a de qualquer uma daquelas pessoas...
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Via meu pai ligando para os bombeiros, numa tentativa de salvar o alvo de tão enfurecidas balas... em vão, pois o que estava deitado na rua já não passava de um corpo sem vida. A vítima já estava até esfriando...
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Tomei coragem e fui olhar a rua. Já tinha me cansado das imagens produzidas pela minha mente baseadas nos ruídos lá de fora... E vi o corpo que jazia no meio da encruzilhada, bem embaixo da minha janela...

...

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Via sangue. E dessa vez via de verdade, com os olhos e não com a imaginação. O defunto estava em meio a uma poça vermelha, deitado em cima do próprio sangue...
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A cena era bem pior do que eu previa! Mesmo sendo dotada de uma imaginação bem fértil, eu jamais poderia recriar em mente as expressões de torpor daquelas pessoas. Eram umas caras de impotência, de desespero, de indgnação e sobretudo, de medo!
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Levaram a viúva aos prantos para longe daquele cenário absurdo- sim, ela conseguiu acreditar no que acontecia e portanto, chorar. Ninguém sabe muito bem lidar com a morte, ainda mais com uma morte tão violenta e tão sem propósito, sem aviso... ninguém queria lidar com aquela morte.
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Aos poucos, a vizinhança foi recolhendo-se às suas casas e quando a perícia chegou, o local já havia sido abandonado por todos... Só o defunto 'descansava em paz'...
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EM PAZ?!??
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.Bem, ele descansava sim, mas numa paz que eu não quero para mim.

...

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Bom... esse texto foi escrito na madrugada do dia 28 para o dia 29 de dezembro de 2007, quando mataram alguém aqui perto, dias depois das festividades natalinas...


... eu não saberia expressar-me de outra forma... espero que esse tipo de coisa deixe de acontecer em 2008, mas sei bem que isso não será um desejo muito fácil de ver realizado...


Tenho medo... aqui era tão tranquilo há uns anos atras... e agora isso! Onde vamos parar?!?



sábado, 22 de dezembro de 2007

Cores de um olhar

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Certa noite, numa mesa de bar,
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tornei-me novamente uma criança
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ao ver os teus olhos cor de esperança
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tentando com os meus olhos encontrar



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Hoje vejo um outro tipo de olhar,
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que me mostra essa fria cor de chumbo
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e acredito ser a única no mundo
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sentindo essa cor vazia me penetrar.
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Por que insistir nesse cruzar de olhos
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Se não há sentimento para mostrar
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e nem mesmo a vontade de junto estar?

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Esqueça amar, esqueça apaixonar,
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esqueça namorar, gostar ou ficar
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e esquecerei teus olhos cor-de- mar!

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Bem... p'ra começar, ISSO NÃO É UM SONETO!!! Parece, não é??!? rs... Não, não parece, nem é! rs
Eu comecei esse poema em junho de 2006 e tentei fazer dele um soneto, +/- até outubro do mesmo ano...

Lembro que sentia muita admiração e ao mesmo tempo, muita inveja daqueles sonetistas que estudava lá da letras (fora os poetas q estudam lá tb). Daí resolvi fazer meu próprio soneto...

Só que eu sou uma pessoa meio sem paciência - pra não falar da minha falta de talento p'ra versos metrificados - e por isso, acabei desistindo dessa idéia de soneto. Não é a minha praia mesmo...

Enfim... não custa compartilhar a minha frustração mediante minhas dificuldades, nem é uma vergonha para mim fazer isso... Admito: NÃO SOU POETIZA/POETA, mas tenho outros atributos!

(hehehehehehe)

Divirtam-se com essa trágica tentativa de escrever um soneto!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

RessacaS

Ela acordou. Ele não conseguiu dormir. Não sabia ao certo se cedo ou tarde. Estava totalmente consciente do sol se levantando, mesmo por detrás das paredes fechadas e janelas pesadas. Tinha a boca seca, muito seca e mesmo salivando muito não conseguia matar sua sede... precisava de um copo d'água urgentemente. Sua barriga parecia um ser autônomo, movia-se em completo descaso e desapego pelo seu hospedeiro...
Levantou-se! Ao caminhar até a cozinha, notou os vestígios da véspera... É, iria ficar ainda um bom tempo deitado, derrotado, entre os despojos da noite passada. não tinha tempo para isso, a sede fez com que fosse até o outro cômodo sem pensar na cena com que havia se deparado. Passou em revista o quarto com um movimento mínimo de cabeça. Talvez assim não enfurecesse inda mais os tornos que lhe apertavam as têmporas. Leda ingenuidade.
Bebeu do líquido como se ele fosse o mais precioso do universo... A mochila jogada em um dos canto ainda lá, o casaco ao pé da cama, carteira e chaves sobre a cômoda... como era boa aquela água! Sentiu uma pontada na cabeça, enquanto caminhava pela casa... talvez fossem as lembranças fazendo força p'ra chegar. Deu graças pelo volume que o estava incomodando no bolso da calça. Não precisaria se mover para procurar o celular.
Ela passou pela sala e viu suas sandálias... estavam arrebentadas de tanto dançarem. No quarto, viu as roupas esparramadas pelo chão... ainda bem que não trabalharia hoje, por que precisava "limpar aquela bagunça". Achou graça na escuridão que encobria a desordem do aposento que lhe servia de quarto e, na maior parte do tempo, também de sala.
Pegou no vestido. Notou uma mancha púrpura no traje tão belo... Mas o escuro não escondia a mancha da camisa, muito próxima do rosto, visível mesmo na penumbra. "Será que isso saí?", pensou ela. "Merda”, pensou ele.Enquanto isso, os flashes da noite passada começavam a brotar naquela cabeça confusa. Começou a pensar na noite passada. Será que era noite passada? Ele ainda não havia dormido...
A cada passo que dava, cada objeto que pegava, sentia uma nova pontada... sim, eram os momentos vividos sendo novamente reproduzidos, ainda que recortados pela ótica ébria da dona das lembranças. Resolveu tentar traçar uma linha cronológica dos acontecimentos, mas sem sucesso. Os cacos de noite continuavam caindo sobre sua cabeça no compasso sincopado do pulsar de sua testa... A boca pedia mais água... a boca fazia mais água! Sentia-se mal e lembrava... aí, sentia-se pior ainda... "como podia ser tão burra, como podia ter-se deixado levar tão longe?!". "Dançar numa mesa de bar?!" Não era disso, ter ressaca... Mas as circunstâncias eram de todo atípicas, e ele não era, de longe, o mais alterado naquela noite.
De um salto corre atônita para o banheiro. Súbito, um arroto incontrolável trouxe à sua boca um gosto ácido e quente. É que o mal da noite anterior já subia pela goela e precisava ser expurgado no lugar certo, para não causar-lhe ainda mais transtorno... Todo o corpo se contraiu para evitar algo que poderia ser uma desgraça naquela situação. Sabia que dificilmente teria como alcançar o banheiro naquele estado. "Vinho barato dá nisso!!", praguejava ela mentalmente. “Vinho barato dá nisso!!” pensou imóvel para despistar as dores.
Agora doía-lhe a cabeça e o estômago. Na boca, um gosto ácido.No rosto refletido no espelho, a vergonha... e as cenas?! Que inferno eram as cenas voltando... era tudo tão ridículo! Não pode evitar um sorriso à idéia de preferir o escuro a se ver, ou ser visto, naquela situação. "Ficar justamente com aquele sujeito?!" Só assim mesmo para ficar com aquela louca... Onde já se viu, dançar em cima da mesa... Achava que isso só acontecia em histórias de bêbados!!!(...)
Chorou! Chorou defronte ao espelho, procurando seu melhor ângulo...
Riu! Riu sem se importar com a dor que martelava sua testa, agora. Não havia ângulo bom naquela história.
Chorou mais ainda! Agora vinha uma dor no peito, uma angústia, vontade de gritar...
Não tinha como não rir daquela história...
Não tinha quem a acudisse, não tinha quem a apoiasse, não tinha quem a amasse... E quanto mais ria mais tinha vontade de rir... estava sozinha num banheiro frio e já sentada no chão, encolhida, sofrida... Sozinho, no escuro, encolhido com a puta dor de cabeça. E rindo. Lembrou-se da sua condição de moça solteira, vivendo sozinha na cidade grande. Lembrou-se de sua condição de homem sozinho morando na cidade grande. Ela não tinha platéia nesse momento... Quem dera tivesse platéia naquele momento!Ela era só! Ela se garantia sendo só. Ele era só! Ele se tranquilizava sendo só.
E pensando dessa forma, levantou-se, lavou o rosto, a boca, olhou-se no espelho e prendeu o cabelo. Sentou-se na beira da cama e passou os indicadores pelas têmporas. Pegou um analgésico p'ra aplacar a dor insuportável que era agora constante. Engoliu em seco o comprimido. Como sabia que era só tomar um café para melhorar da dor de cabeça, pôs-se a isso. Pôs-se então a fazer as tarefas domésticas e a limpar a sujeira. "O trabalho braçal enobrece o homem e ajuda a esquecer a noite passada", pensava ela... ”Dessas noites muito se esquece mas devem ser lembradas...” pensava ele
E repetindo isso como um mantra, foi-se esquecendo, esquecendo, apagando e apagando... até não lembrar de mais nada!
E com isso em mente, foi tentando relembrar a noite, montando e montando, lembrando e lembrando, até não esquecer mais nada!